🌚 Escuta com o corpo e não apenas com a cabeça
Deixo-vos uma fabulação do conto de descida de Inanna a Eréškigal. Esta versão tem sido tecida por mim ao longo dos anos e não pretende ser uma transcrição fiel da viagem suméria e acádia, apesar de conter alguns elementos e detalhes originais.
Em contraste com as recentes interpretações psicocêntricas deste mito, deixei exposta e explícita a dimensão ecológica, pela deusa mutante e contaminada (Inanna) que desce à barriga da deusa tectónica primordial (Eréškigal, que aqui é o próprio planeta vivo). Os originais juízes dos sete portais foram transformados em Sete Senhoras do Submundo, que guardam cada limiar.
Este é um conto de transmutação eco-mítica, onde o colapso do mundo moderno se metaboliza através da carne, da terra e do tempo. Cada Portal abre-se como uma ferida geológica, uma constelação apagada, uma colina que ainda canta memórias soterradas. São os protocolos sépticos do submundo, onde o corpo é reconhecido como um território político contaminado, portador de resíduos tóxicos, não somente químicos, também simbólicos, coloniais e psíquicos. Estes portões não se abrem só com chave psicológica, mas com o reconhecimento das feridas carregadas por corpos femininos, racializados e diagnosticados.
Não há respostas fixas, nem soluções individuais, mas linguagem que pulsa entre venenos, visões e vínculos. Cada um dos sete portais ativa partes da teia e não se atravessa sozinho, nem com pressa, pois este é o chamamento do activismo eco-mítico.
👉 Conto do Livro “O Dia a Seguir da Tempestade”









