Serpente da Lua por Sofia Batalha
Eco-Mitologia
Sereias
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Sereias

Sabedoria esquecida centrada na Água

Hoje navegamos por águas ancestrais da cultura portuguesa. Vamos tentar descobrir uma sabedoria quase esquecida, muito ligada à água e que nos chega através dos mitos e do folclore.

Evocamos as figuras das sereias e outros seres aquáticos, numa visão eco-mitológica.

Sob a pele salgada da costa portuguesa, há histórias antigas que ainda respiram. Neste episódio em mergulho profundo, descemos às águas onde mito, memória e ecologia se entrelaçam. As sereias, tantas vezes reduzidas a figuras de sedução, reaparecem aqui como portadoras de uma sabedoria aquática esquecida. Entre lendas medievais, deusas fluviais, mouras encantadas e estranhas sereias de pés-de-cabra, seguimos pistas de um conhecimento antigo que lia o mundo através da água: marés, correntes, vozes do vento, ritmos do tempo profundo. Nesta travessia eco-mitológica, os mitos deixam de ser apenas histórias e tornam-se verdadeiros ecossistemas narrativos, onde cultura, território e psique humana continuam a conversar.

Mas esta viagem é também um convite a escutar aquilo que foi silenciado. Ao longo da história, muitas dessas vozes aquáticas foram domesticadas, moralizadas ou esquecidas, como os próprios rios, fontes e mares que tentamos controlar. Recuperar estas figuras míticas é, talvez, recordar outra forma de habitar o mundo: mais fluida, relacional e atenta aos ciclos da Terra. As sereias, nesta leitura, não são apenas criaturas do passado; são embaixadoras míticas da água, lembrando-nos que o mundo não se organiza apenas a partir da terra firme, mas também a partir das correntes invisíveis que nos atravessam. Neste episódio, mergulhamos nessas águas antigas para perguntar: o que ainda nos podem ensinar os cantos das sereias?

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Referências do episódio:


{Contexto}

⚠️ Lembro que todas as palavras e conceitos tecidos no meu trabalho nascem através da minha vida, da naturalmente tendenciosa e sempre limitada percepção das coisas, não assumindo que carreguem qualquer verdade absoluta. Escrevo a partir de um contexto de baixa intensidade no norte global, em consciência e responsabilização pelas lutas interseccionais de ecocídio e genocídio da modernidade, aprendendo a reconhecer e deslaçar o capitalismo-heteronormativo-global-colonial um dia de cada vez, mas ainda assim usando as suas ferramentas.

⚠️ Com a consciência de que este projecto assenta numa plataforma que, pela sua natureza, escraviza e aniquila também ecossistemas inteiros, as suas populações humanas e não-humanas na constante, massiva e violenta, extração de metais para baterias e tecnologia. Com o enorme consumo energético de cada byte armazenado algures, nunca numa ilusória nuvem, mas em data-centers físicos, com pegada ecológica devastadora. Apesar das contra-narrativas hegemónicas que acolhe, o projecto expressa-se através destes suportes que assentam e perpetuam sistemas de opressão e violência. Publico e circulo estes textos na mesma infraestrutura que critico, sabendo que não estou fora dela nem moralmente acima dela.

⚠️ Apesar do saber ser sempre colectivo, agradeço que sempre que citarem palavras ou conceitos do meu trabalho refiram a fonte, para honrar as muitas horas de investigação e prática que geram estes textos disponíveis a todos. Como investigadora independente, recordo que não tenho afiliações ou bolsas institucionais, pelo que todo o investimento é apenas sustentado pelos meus muito limitados recursos pessoais. Também sei que este projeto depende de ser visto, partilhado e validado, e que essa necessidade participa da mesma lógica de visibilidade e influência que aqui questiono.

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