Práxis
Praticar ser Holobionte
Novas propostas de (des)formação. Encontramo-nos?
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Práxis - Praticar ser Holobionte
Nas sessões de Ecopsicologia, tenho trazido a importância da práxis: essa dança contínua entre teoria e prática, onde aquilo que fazemos é transformado pelo que sabemos, e aquilo que sabemos é transformado pelo que fazemos. Não se trata de aplicar conceitos prontos à vida, como quem cola etiquetas novas sobre práticas antigas.
Trata-se de deixar que os conceitos nos mexam por dentro, que reorganizem a atenção, o gesto, a escuta e a forma como habitamos o mundo.
Por isso, mudar a metáfora muda a prática. Quando passamos de “conexão” para “metabolismo”, deixamos de imaginar a Terra como algo exterior a que precisamos de regressar, e começamos a sentir que respiramos, comemos, excretamos, adoecemos e regeneramos dentro de circuitos vivos. Quando passamos de “relação” para “emaranhamento”, deixamos de pensar em dois pontos separados que se aproximam, e começamos a reconhecer que sempre estivemos tecidos na rede viva. Afinal, o nosso sangue sempre foi seiva e os nossos ossos sempre foram sonhados pelas pedras.
Um dos conceitos vivos que atravessa este caminho é o de holobionte, termo associado ao trabalho de Lynn Margulis e às ciências da simbiose. O holobionte lembra-nos que nenhum corpo é apenas um corpo individual: somos ecossistemas ambulantes, compostos por células humanas e não-humanas, bactérias, vírus, fungos, memórias, territórios, alimentos, águas, medos, heranças e atmosferas. No campo meta-relacional, este conceito deixa de ser apenas uma descrição biológica e torna-se uma imagem ontológica: somos seres compostos, permeáveis, inacabados, feitos de relações co-emergentes.
Contra o sujeito moderno, autónomo, separado, proprietário de si e dominador do mundo, o holobionte devolve-nos uma dignidade mais antiga e mais humilde: a de sermos muitos, a de sermos atravessados, a de existirmos sempre com outros.
A dor não é só minha; pertence também ao campo onde existo. O desejo não nasce isolado dentro de mim; é moldado pelas forças que me atravessam. A identidade não é uma coisa fixa; é uma dança situada entre presenças, ausências e interdependências.
Um estudo recente de Robinson, Robinson e Barrable, publicado em 2026 na revista Ambio, vem reforçar a urgência pedagógica deste movimento — sim, tenho estado muito feliz com este estudo, por sublinhar o que optei por praticar é de facto um caminho viável para as mentes ocidentalizadas. A investigação mostrou que a literacia sobre o holobionte — isto é, compreender os humanos como assembleias simbióticas multiespécies — pode aumentar a sensação de pertença e ligação à natureza. Mais do que um dado curioso, isto confirma algo profundamente importante para a Ecopsicologia: os conceitos não são neutros. Quando continuam abstratos, intelectuais e desencarnados, podem ficar densos, distantes, quase decorativos. Mas quando são sentidos no corpo, quando mudam a imagem que temos de nós mesmas, podem abrir novas capacidades de relação com o não-humano. Numa cultura moderna treinada na separação — entre humano e natureza, mente e corpo, indivíduo e comunidade, saúde e território — resgatar conceitos vivos como o de holobionte é também resgatar possibilidades de cuidado, responsabilidade e pertença.
Não estamos a tentar religar fios partidos. Estamos a lembrar, contra o esquecimento moderno, que nunca estivemos fora da rede viva.


