Parentescos Eco-Míticos
Rituais de Escuta
Sob a pele da terra, algo se agita. Um zumbido lento, uma respiração mais antiga do que a doutrina, um pulso sob as estradas e os registos. Caminho onde os rios se tornam mais densos e as pedras vibram, seguindo o eco de uma gramática que nunca foi escrita, mas sempre conhecida. Por mais silenciosa que pareça hoje, ainda é sonhada e sussurrada.
Nos últimos meses, tenho trabalhado em várias descobertas eco-míticas diferentes, limiares paradoxais a serem atravessados. Ou talvez eles estejam a guiar-me. Nas dobras de capelas ibéricas esquecidas, sob o peso de santos com nomes emprestados, encontro aqueles que nunca partiram: Mouras com espinhas de serpe, Madonas feitas de cinzas e raízes, deusas escuras como ossos que se lembram do mundo antes das cercas. O mundo soberano e selvagem de cerimónias sagradas. Aquelas que não estão acima do mundo vivo e indomável, mas com ele e através dele.
Isto não é investigação no seu sentido moderno e redutor. É um ritual, uma oração de memórias coletivas gritantes. Um lento desfazer do domínio da modernidade, fio a fio. Pele a pele. Sigo o cheiro de ervas queimadas e água salgada, lendo a terra como se lê um corpo marcado pelo tempo — cicatrizado, sagrado e ainda falante. Zumbindo, uivando, cantando. Estas histórias, e toda a sua ecologia, vêm com dentes e leite, com sangue que brota da fonte da memória. Este não é um lugar para consolo. É exigida presença, o tipo de escuta que te abre, uma devoção que sabe ajoelhar-se no musgo e falar com a pedra sem exigir respostas. Apenas aqui. Corpo no lugar.
Aqui, a eco-mitologia não é teoria ou metáfora, mas parentesco e metamorfose. Tenho trabalhado com corpo de rio, com entidades vivas que são a própria paisagem. Convites para recordar a nossa linhagem selvagem, regressando ao subsolo da psique e do lugar.
Para deixar a dor vir.
Deixar os mitos respirarem.
Deixar a montanha falar através das nossas costelas.
Este trabalho não é seguro, pois agita ossos e ecos há muito esquecidos.
É urgente recuperar os artefactos de como ser novamente um ser humano relacional.
Escritas em que tenho trabalhado:
Reimpressão, revisão e expansão de Nossa Senhora de Orada — Linhagem Eco-Mitológica da Montanha — Uma guardiã metamórfica de limiares e rios, Orada é o pulso ctónico de uma terra que se lembra através da água, da pedra e da história.
Pesquisa, investigação, escrita e edição do novo livro A Roda das Velhas — A Fala do Mundo — Tudo sobre Contos Eco-Míticos. No silêncio queimado dos contos antigos, a Terra ainda sussurra, cada mito um eco ritual que nos chama de volta à irmandade através de feridas, ervas daninhas e mistério.
Pesquisa, investigação, escrita e edição do novo livro A Agulha de Osso — Tecelagem da Virgem Negra no Território Ibérico — Entrelaçadas com osso e respiração, estas orações remendam, costuram e perfuram o tecido do esquecimento de como a branquitude está a ser montada há gerações.
O trabalho de fundo tem sido o conceito vivo e escorregadio da Psique Enxame do qual já saiu O Tempo dos Mantos Roubados e elaborei o Questionário Sentir com o Campo (obrigada pela vossa participação neste questionário!). Tenho lido muito para dar movimento a este esqueleto de conceito, mas ainda me falta bastante até ter algo mais finalizado. Neste momento tenho cerca de 600 páginas de notas!
Estou também a escrever um ensaio do qual saberão mais brevemente e continuo a gravar episódios do Podcast de Eco-Mitologia.


