Eu Enxame
Pulsão Relacional
Um dos módulos do curso de ecopsicologia que leciono fala do «Eu Ecológico». Mas já há mais de um ano que venho a amadurecer, a assimilar e a sonhar com a ideia do Eu Enxame. Tem sido inquietante, mas profundamente fecundo.
A ideia do «eu enxame» surgiu inicialmente a partir da leitura do livro de Joseph Dodds, Psychoanalysis and Ecology at the Edge of Chaos (2011), no qual o autor explora o conceito de «inteligência de enxame» na intersecção entre a teoria da complexidade, a psicanálise e a filosofia de Deleuze e Guattari. Curiosamente, ao reler o livro, procurei o termo, apenas para perceber que tinha projetado a expressão «Eu Enxame» sobre o texto, uma vez que este termo não aparece no livro, nem em qualquer outro lugar, aliás. Um lapso fértil que, em última análise, deu origem a uma nova camada de investigação e prática. O «Eu Enxame» proposto nestas linhas vai além da inteligência distribuída e funcional descrita por Dodds, uma vez que implica um campo psíquico coletivo, sensível e migratório, enraizado em ontologias relacionais, ecológicas e não modernas.
É uma psique que se move em enxames, premonições, oráculos e cruzamentos, mais próxima da floresta onírica do que do algoritmo de resolução de problemas.
Esta ideia está alinhada com a teoria da complexidade e com Deleuze/Guattari, não como uma entidade centralizada, mas como uma inteligência distribuída, em que múltiplos elementos (neurónios, corpos, símbolos, afetos, ecologias) co-organizam-se num processo contínuo de emergência, contágio e adaptação. É uma mente em movimento, sem sujeito fixo, sem origem clara e sem comando central.
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Embora o termo «Eu Enxame» tenha sido um lapso de intuição (talvez do próprio enxame), esta não é uma ideia nova. É uma forma ancestral e futura de perceber a psique como uma rede viva coletiva, migratória, sensível e indisciplinável. É o reconhecimento de que a psique não está dentro de ti, mas passa por ti como um enxame, como um murmúrio, como um cruzamento:
Não é interna; é porosa e uma passagem - O sonho não é só teu. A raiva não é só tua. A memória é migratória.
Emergente, plural, rizomática - A psique não é organizada por estruturas fixas (id, ego, superego), mas por fluxos, pulsações e contágios.
Móvel, situado, mas não fixo - Um bando muda de direção sem que ninguém «decida»; o mesmo acontece com a psique.
Relacional, intensivo, ecológico - Não há separação entre o sentimento psicológico e o domínio social, ecológico ou espiritual.
Caótico, fértil, indomável - O caos não é a perda de ordem, mas o berço do inédito.
Imaginemos a migração das aves ou o fluxo de um cardume de peixes — a direção surge da relação, não da liderança individual. Proponho que o «Eu Enxame» seja trans-subjetivo, um processo e, fundamentalmente, relacional, num eu que não é fixo, mas entrelaçado, ecológico, multicultural e mutável. Um Eu que se reconhece como um nó numa tapeçaria viva, mais parecido com um campo vibracional do que com uma identidade fechada e definida. O «Eu Enxame» é como uma cognição ecológica em rede, onde:
Saber não é possuir, mas ressoar com e em padrões emergentes;
Pensar é dançar com afetos, sinais, instintos e territórios vivos;
A relação é metabolismo metamórfico, não estrutura;
E a mudança não é reforma, mas transmutação, alcançada coletivamente e não pelo indivíduo isolado.
{estas são as nossas psiques a dançar juntas}
O Eu Enxame versus o Sujeito Moderno
O Eu Enxame desafia diretamente o sujeito moderno, individual, egocêntrico, racional e separado. Perturba os próprios alicerces da modernidade, porque é impulsionado por uma afinidade emergente, em vez do controlo.
E isto pode ser inquietante, pois o impulso moderno é perguntar rapidamente: «Quem lidera este enxame?», «Qual é o propósito?», «Onde está a razão e o objetivo?»
Mas o Eu Enxame responde com uma lógica diferente—uma que é rizomática e enraizada num parentesco radical. Talvez não se trate de compreender ou dominar este conceito, mas de sentir quando ele está a acontecer —num bando de pássaros, numa multidão em marcha, numa ideia que brota em várias mentes ao mesmo tempo. Em experiências em constante fluxo, transbordando além das fronteiras e espalhando-se como um contágio, numa sensibilidade coletiva, errante e relacional.
Quero oferecer o cuidado do manto cerimonial que protege e orienta quem se aproxima do «Eu Enxame», com o desejo de o vestir, porque é preciso primeiro aprender a ouvir, coabitar e co-responder. É um conceito vivo, não um degrau na escada do conhecimento… é um ser coletivo que exige cuidado e conexão.
O Eu-Enxame move-se como parte de um coletivo fluido, sabe ser o ritmo das relações, move-se através da escuta.
Tenho vindo a reunir notas sobre estas formas de experimentar o Eu para além do sujeito moderno e cheguei mesmo a criar um questionário sobre o tema. O «Eu Enxame» move-se como um murmúrio, um rebanho, um cardume, uma tempestade, em migração, contágio e sintonia. É sazonal, contextual, sensível, profundamente cinestésico e em sintonia afetiva. Mas o desafio existencial é sentir-se sem um bando e fora de ritmo. Por isso, a prática consiste em ouvir e, depois, ouvir ainda mais.
Isto exige o colapso do Eu isolado… o Eu moderno tem de morrer para que o Eu em rede e ecológico e o Eu Enxame possam nascer… múltiplos, encarnados, desorientados e abertos ao sensível. Tudo isto requer tolerância ao desconforto, sem pressa para corrigir ou silenciar. O «Eu Enxame» revela-se quando nos permitimos ser afetados pelo emaranhado, mesmo sem saber para onde ir. Será que pode ser um antídoto para o narcisismo individualista, seja através do pertencer à Terra ferida, seja através da dissolução no coletivo sensível?
Trazemos o Eu para casa, mas para uma casa que é migratória, viva, sazonal, plural e respeitosa da Terra, do sentimento, do conhecimento ancestral e do pensamento incorporado.
O Eu em Rede e Ecológico é o Eu que se reconhece como um nó em múltiplas redes vivas — históricas, ecológicas, simbólicas, espirituais. Enredado por tudo o que o toca, visível e invisível. Profundamente ligado à Terra, ao lugar, às histórias e aos ritmos. Emerge quando sentes a dor da Terra, ouves as histórias que te precedem e reconheces a tua interdependência visceral
O «Eu Enxame» é o Eu que emerge de um movimento coletivo sensível. Não tem centro, mas sim uma orientação mutável. Não é estável, mas escuta os ritmos, sintoniza-se com o campo e dança com o inesperado. É um Eu migratório, orientado para o processo e interafetivo. O Eu Enxame surge quando há confusão, caos, desorientação —quando o conhecimento racional falha e o corpo precisa de se sintonizar com o campo, de sentir com os outros antes de saber o que sente. Ambos surgem quando deixamos de tentar ser «indivíduos completos e definitivos».
Quando o sujeito moderno se desintegra, surge um Eu múltiplo, híbrido e sazonal.
Um Eu capaz de criar raízes sem se endurecer, hábil em migrar sem esquecer de onde vem. Um Eu que se reconhece como corpo e lugar, história e ritmo, sintonia e ferida, oferta e anseio. Não se trata de escolher entre teia ou enxame, mas de ouvir como cada camada responde a diferentes contextos com formas distintas de sabedoria. Trata-se de reconhecer que ambos coexistem, e que cada parte de nós se adapta de acordo com o ambiente, a teia, o ciclo, o chamamento.


