El Niño
E o cataclismo da voracidade
Há uma tempestade a formar-se, “El Niño”.
Quero olhá-lo como uma metáfora perturbadora, o menino ou a a criança. Juro que não queria mesmo nada escrever este artigo.
“El Niño” é o nome dado a uma corrente oceânica hoje desregulada, um ciclo climático que altera chuvas, secas, colheitas, incêndios e tempestades à escala planetária. Hoje em dia a perturbação das grandes correntes que ajudam a regular a respiração da Terra.
A Organização Meteorológica Mundial afirmou que este El Niño deverá intensificar-se ao longo do resto de 2026, provocando condições meteorológicas mais extremas em grande parte do globo. Várias previsões de agências meteorológicas nacionais sugerem que poderá vir a ser um dos mais fortes de sempre — um possível «super» El Niño. (daqui)
Há uma ironia no nome El Niño, pois, antes de ser uma categoria climatológica global, foi um nome dado por pescadores do norte do Peru à corrente quente que chegava em dezembro, no tempo do Natal: o Menino, o Menino Jesus, a criança divina. Mas quando esta nomeação atravessa a gramática moderna, cristã e desvinculada, algo se desloca. A criança deixa de ser relação local com o mar, o alimento, os ciclos, a pesca, a sobrevivência, e passa a nomear uma anomalia planetária. O Menino torna-se sinal de desregulação. E esta associação é uma imagem brutal da própria modernidade, desta cultura pseudo-adulta que, tendo perdido a capacidade de cuidar das suas crianças e das suas correntes matrizes, liga a infância a catástrofe, ameaça, excesso e perturbação. Não porque a criança o seja, mas porque o mundo que a recebe se tornou incapaz de reciprocidade.
A criança cataclismo
A modernidade industrial domesticou a infância. Isolou a criança da comunidade, separou-a do território, fechou-a em instituições especializadas e transformou o desenvolvimento numa questão de desempenho individual.
A infância tornou-se simultaneamente hiperprotegida e profundamente abandonada. E a criança volta agora tempestuosa a reclamar a ternura que lhe é devida.
Protegida de riscos imediatos, mas abandonada à erosão dos vínculos que sustentam a maturidade relacional e ecológica. Em vez de aprender que pertence a um mundo vivo, frequentemente aprende que habita um mundo composto por recursos, serviços e objetos. A sua tarefa passa a ser competir, destacar-se e adaptar-se ao sistema existente. Não herda uma comunidade ou território, mas currículo e mercado. Muitas críticas de psicologias indígenas e decoloniais apontam precisamente para esta individualização do sofrimento e para a perda dos contextos relacionais que produzem bem-estar.
Quando uma cultura deixa de saber acolher as suas crianças, acaba por produzir infantilidades deslocadas e gigantescas nas suas instituições. Desregulações que incluem desejos sem limites, impulsos sem contenção, fome sem reciprocidade e claro extração sem maturidade. Mas tudo legal.
A criança não é um projeto individual em construção—é o que nos recordam muitas cosmologias indígenas, comunitárias e relacionais. É um acontecimento coletivo, pertence à aldeia, ao rio, às árvores, aos ancestrais, aos que ainda não nasceram. A criança não é vista como um recipiente vazio a ser preenchido, mas como uma presença já em relação com um mundo vivo. O seu crescimento não é uma corrida para a autonomia, mas uma aprendizagem gradual do entrelaçamento e da reciprocidade. Darcia Narvaez, por exemplo, descreve como muitas sociedades indígenas sustentam a infância em redes extensas de cuidado, contacto corporal, responsividade emocional e participação comunitária, vendo a criança como parte de uma teia de parentesco mais vasta do que a família nuclear.
Por outro lado, muitas tradições indígenas descrevem a modernidade não como uma civilização madura e adulta, mas como adolescente ou infantilizada, incapaz de reconhecer limites, aceitar reciprocidade e compreender consequências de longo prazo. Inerentemente irresponsável. Uma cultura que quer tudo imediatamente, que transforma desejo em direito e crescimento em destino inevitável.
O regresso do que foi esquecido
Neste sentido, El Niño pode ser lido como o regresso do que foi esquecido. As correntes do planeta tornam agora visível o que as correntes culturais fazem há séculos. Desregular e perturbar ciclos. Como se a Terra estivesse a espelhar, em linguagem atmosférica e oceânica, o que a cultura moderna tem praticado em linguagem histórica e social. Com impactos devastadores para todos.
Podemos ainda trazer que em muitas culturas relacionais, a maturidade não é medida pela independência, mas pela capacidade de cuidar das relações que nos sustentam. Então, tornar-se adulto significa tornar-se guardião do mundo.
Na modernidade, pelo contrário, a maturidade tornou-se frequentemente sinónimo de separação, controlo e autonomia. Acho que por isto as nossas crianças carregam hoje uma dor tão particular, não apenas porque herdarão as consequências dos sistemáticos omnicídios… mas porque lhes foi roubada a experiência de pertencer a um mundo suficientemente vivo para ensinar responsabilidade sem terror e reciprocidade sem culpa.
Este fenómeno extremo do El Niño actual, traz-me a perguntas que não são apenas meteorológicas, mas civilizacionais. O que acontece quando uma cultura inteira permanece presa numa infantilização faminta? E o que seria necessário para que voltássemos a crescer, não em poder, consumo ou expansão, mas em capacidade de parentesco responsável?
Antes de terminar, quero clarificar que esta reflexão habita o território da metáfora e não da negação. Trago o El Niño como consequência de uma forma de habitar o mundo, uma metáfora cultural, mas sem diminuir a gravidade das suas consequências, como secas, incêndios, cheias, perdas de colheitas, deslocações forçadas, mortalidade humana e perturbações profundas em ecossistemas já fragilizados. Há vidas humanas e não humanas, espécies, rios, florestas, recifes, colheitas e comunidades inteiras expostas à destruição. A metáfora da infância abandonada que se torna num monstro planetário voraz, a criança cataclismo, pretende perguntar o que podemos (des)aprender quando as correntes, o clima e a cultura se entrecruzam.
Referências:
https://www.britannica.com/science/El-Nino
https://www.bbc.co.uk/news/resources/idt-54f4e985-a7fb-48b2-8246-f3be0d699402
Restoring the Kinship Worldview Indigenous Voices Introduce 28 Precepts for Rebalancing Life on Planet Earth.



"Podemos ainda trazer que em muitas culturas relacionais, a maturidade não é medida pela independência, mas pela capacidade de cuidar das relações que nos sustentam. Então, tornar-se adulto significa tornar-se guardião do mundo." - esta reflexão tocou-me profundamente! Respiro com ela. Sempre grata