Como chego aqui
Investigação incorporada, pedagógica, ecológica, ética e quotidiana

Gosto de me situar com honestidade e, no início de cada (des)formação, digo sempre: não sou psicóloga (mas sou pessoa, com psique e corpo-lugar). Não tenho esse diploma, nem me apresento como terapeuta clínica ou como alguém que vem substituir esse campo profissional. Digo isto não como confissão de insuficiência, mas por rigor, cuidado e responsabilidade. Não falo a partir da clínica psicológica, mas de uma aprendizagem e investigação incorporada, pedagógica, ecológica, ética e quotidiana.
A vulnerabilidade que isto me traz é real. Pois vivemos numa cultura que reconhece mais facilmente a especialização certificada do que a experiência incorporada, o estudo independente, a atenção quotidiana ou a maturação lenta de uma relação com o mundo. Interrogo precisamente que formas de saber são autorizadas e outras diminuídas, e o que perdemos quando só reconhecemos como válido aquilo que cabe nos regimes formais de legitimação.
A minha relação com a ecopsicologia nasce deste corpo-lugar, da experiência diária de viver num tempo em que a crise ecológica deixou de ser uma ideia distante e passou a atravessar o corpo, o sono, o amor, a maternidade, a imaginação e como conseguimos, ou não, estar no mundo.
Chego como alguém com muitas perguntas, a quem alguns poderiam chamar de “muito sensível”, que estuda continuamente estes campos desde há quase duas décadas, fazendo formações, investigando-os com seriedade, cruzando-os com educação profunda, pensamento decolonial e ecológico, crítica da modernidade, espiritualidade imanente, luto climático, ética relacional e práticas de presença; e acompanhando outras pessoas nos seus processos, seja em aulas ou sessões individuais. Mas chego também como alguém que vive isto na pele dos dias e das estações, nas tempestades internas e externas, nas violências passadas e futuras.
A minha aproximação à ecopsicologia passa pela reverência quotidiana pelos dentes-de-leão que irrompem no alcatrão. Pela escuta de uma ribeira contaminada que, mesmo ferida, continua a correr. Pelo amor às minhas filhas. Pelos terrores cataclísmicos que, a cada mês, me atravessam com uma nitidez quase insuportável quando imagino o futuro delas e de todas as outras gerações (sim, porque o que já é presente devastador em muitos lugares, aqui ainda parece futuro). Pela tristeza de habitar um mundo ferido. E também pela estranha, humilde e persistente possibilidade de ainda estarmos aqui.
Ainda estamos aqui.
Caramba…. AINDA ESTAMOS AQUI!
Num mundo imperfeito, devastado, contraditório, belo, contaminado e profundamente vivo. Um mundo onde todos os dias somos chamados não apenas a “gerir emoções”, mas a reaprender o que significa ser humano em conjunto, com outros humanos, com os lugares e os ciclos, com os seres não-humanos, com as ruínas e com as possibilidades que ainda respiram.
Também quero dizer com clareza que a forma como abordo estes temas não assenta nas fantasias neoliberais da responsabilidade individual, nem na ideia de que a resposta à crise ecológica passa apenas por escolhas de consumo, estilos de vida verdes ou aperfeiçoamento pessoal. Isso, muitas vezes, é parte do próprio problema.
A ecopsicologia que me interessa não serve para nos tornarmos indivíduos mais ajustados a um mundo em colapso ou salvadores de alguma coisa. Permite-nos começar a sentir a profundidade da separação que herdámos e perceber que a nossa dor não é privada. Reconhecemos que muito do que chamamos de ansiedade, luto, impotência ou desorientação pode ser também uma forma de contacto com a realidade.
Nada disto significa romantizar o sofrimento, nem transformar a dor ecológica numa identidade. Significa abrir espaço para perguntas fundas: que tipo de mundo produz esta dor? Que estruturas, histórias, economias e formas de vida nos trouxeram até aqui? E que outras formas de presença, responsabilidade, comunidade e pertença ainda podemos praticar, mesmo sem garantias?
Por isso, a minha abordagem à ecopsicologia, seja em (des)formações, acompanhamentos individuais ou em supervisão, não é, nem vem de, uma formação clínica em psicologia. É um percurso de aprendizagem, desaprendizagem e investigação relacional. Um compromisso e um convite a pensar, sentir e praticar a ecopsicologia como campo vibrante e vivo, pelos meandros do corpo e do território, entre a crise íntima e a crise civilizacional, pelo meio do luto e da imaginação, entre aquilo que foi despedaçado e o que ainda pode ser cuidado.
Não ofereço respostas simples. Mas podemos chegar a uma clareira onde possamos, com rigor e ternura, ficar com algumas perguntas difíceis. Juntas.




