A Vida que Chamámos Morta
Sobre frutos, pinturas e a erosão do parentesco ecológico

A designação que a pintura ocidental moderna deu a uma das suas categorias mais celebradas, natureza morta, é muito reveladora. Pintam-se frutas abertas, pão acabado de partir, peixes brilhantes, uvas pesadas, flores recém-colhidas. Vemos abundância, textura, fertilidade, colheita, aquilo que alimenta a vida. Mesa farta. Mas chamamos-lhe morta. Apesar da vida que é e que alimenta, chamamos-lhe morta.
Acho que este paradoxo está no olhar que a nomeou. Nada naquela mesa existiu sozinho, nem sequer na mesa que foi árvore. O pão traz consigo o trigo, a chuva, os microrganismos do solo, as mãos que semearam e colheram. A fruta transporta polinizadores, estações, ventos, rios, árvores e comunidades humanas. Mesmo depois de colhidos, estes alimentos continuam inseridos num metabolismo vivo de transformação, decomposição e nutrição. Um metabolismo vivo.
O que a categoria “natureza morta” obscurece não é apenas a vida do alimento, mas a enorme rede de relações vivas que o tornou possível.
Há aqui uma pequena história da modernidade. Uma cultura que aprendeu a admirar a abundância sem reconhecer os parentescos, afinidades e relações que a sustentam. Sem assumir impactos e responsabilidades. Contempla, sem envolvimento, o fruto sem a árvore, a refeição sem o território, o alimento sem o ecossistema... A mesa permanece cheia, mas as relações que a fecundaram desaparecem do enquadramento. Numa perspetiva de cosmologias relacionais, nomear estas pinturas de “natureza morta” é um exílio de parentesco, uma mutilação silenciosa de solos, águas, fungos, insetos, plantas, animais e humanos, no que parece apenas uma cesta de fruta numa mesa farta.
Pergunto o que precisou de desaparecer da nossa imaginação para que conseguíssemos olhar para uma mesa repleta de ecossistemas e ver apenas objetos…


