Apresento-te A Agulha de Osso — Tecelagem das Virgens Negras, um ensaio eco-mitológico, crítico e situado que investiga a persistência das Virgens Negras no território ibérico enquanto arquivos vivos de memória ecológica, mestiçagem cultural e resistência simbólica. Cruzando eco-mitologia, ecopsicologia, estudos do folclore, história religiosa e crítica decolonial, proponho uma leitura das Virgens Negras não como variações iconográficas da devoção mariana, mas como continuidades subterrâneas de antigas cosmologias animistas, telúricas e relacionais. Progressivamente traduzidas, saneadas ou silenciadas pelos processos de cristianização, colonialismo e normalização da branquitude europeia. O livro situa estas figuras escuras como corpos-território — rios, pedras, grutas, lobos — onde mito, paisagem e história permanecem indissociáveis.
Entre fabulação eco-mítica, investigação-oração e reflexão crítica, o ensaio desenvolve a Virgem Negra como força insurgente que desestabiliza as ontologias hierárquicas da modernidade, questionando a pureza racial, a abstração transcendental e a separação entre humano e terra.
Através de contos, práticas de escuta e análises simbólicas, A Agulha de Osso propõe a tecelagem como metodologia epistémica: um gesto de reparação que urde memória, luto e responsabilidade relacional no húmus europeu.
Contribuindo para os debates nas humanidades ambientais, nos feminismos decoloniais, nos estudos críticos da branquitude e nas pedagogias da complexidade, este mini-livro oferece um convite revoltado a reaprender a escutar o escuro não como ausência, mas como ventre fértil de justiça, pertença e transformação colectiva.



A Agulha de Osso — Tecelagem das Virgens Negras
Edições Corpo-Lugar
ISBN: 9798903360956
Este livro não é um tratado de fé nem uma negação do sagrado. É uma escuta situada entre urtigas. A partir do território ibérico e europeu, convoca as Virgens Negras, Mouras e figuras escuras da paisagem como vestígios vivos de eco-mitos silenciados — presenças anteriores às doutrinas, sobreviventes às catequeses, portadoras de uma memória que insiste no corpo, na terra e no rito.
Ler A Moura Sem Mãos (não está no livro)
Ler A Rainha-Mãe dos Muitos Filhos (não está no livro)
Ao regressar a estas figuras, o ensaio confronta a genealogia da Europa consigo mesma: a construção histórica da brancura como norma, a negritude empurrada para o subterrâneo e as polarizações raciais, sociais e políticas que ainda estruturam o presente. Porque o colonialismo não terminou, esta escuta não procura inocência nem redenção, mas responsabilidade ao desenterrar fios, reconhecer continuidades e aprender a escutar onde antes se mandou calar.
“Não procuro confirmar dogmas nem negá-los, mas deslocar o eixo da escuta, entrecruzando investigação, oração e fabulação. Não pretendo falar de um lugar de especialização, mas de curiosidade.” _Sofia Batalha
Índice
As Linhas Vivas
Virgens Negras e Revolução
Aqui à Beira do Lume
Fabulação eco‑mítica da Virgem Negra em território ibérico
Notas de Escuta: Pontos Enlaçados na Fabulação Eco-Mítica
O Conto da Memória Negra do Chão
∞ Prática de invocação: Costurar com a terra
O Conto que a Agulha Lembra
Grimm e Basile
A Dama do Pé-de-Cabra
Gaia, Ortiga e Mouras
Ortiga, Mouras e Virgens Negras
Conto de Fátima
A Criada de Dona Lopa
Marialva, Mouros e o Pé-de-Cabra
Conto da Ajudante de Dona Loba
∞ Prática de escuta escura: Urdir o que arde
O Conto das Deusas que são a Terra Sagrada
∞ Prática da raiz: Escutar a Terra Negra
O Conto da Terra que fala por si mesma
∞ Prática ritual: Beber a Água Escura
O Conto dos Animais Ungidos
∞ Prática ritual: O Chamamento dos Animais AncestraisVirgens Negras de Portugal
A Costura Final
Um pedido importante ❤ dois minutos para apoiar com um testemunho.
Activismo Afectivo e Mítico. Paisagens internas e externas, narrativas ecológicas, simbióticas, eco-mitologia, ecopsicologia, ecofeminismo, ecoespiritualidade, arte, e escrita.
{Contexto}
⚠️ Lembro que todas as palavras e conceitos tecidos no meu trabalho nascem através da minha vida, da naturalmente tendenciosa e sempre limitada percepção das coisas, não assumindo que carreguem qualquer verdade absoluta. Escrevo a partir de um contexto de baixa intensidade no norte global, em consciência e responsabilização pelas lutas interseccionais de ecocídio e genocídio da modernidade, deslaçando o capitalismo-heteronormativo-global-colonial um dia de cada vez, mas ainda assim usando as suas ferramentas.
⚠️ Com a consciência que este projecto assenta numa plataforma que, pela sua natureza, escraviza e aniquila também ecossistemas inteiros, as suas populações humanas e não-humanas na constante, massiva e violenta, extração de metais para baterias e tecnologia. Com o enorme consumo energético de cada byte armazenado algures, nunca numa ilusória nuvem, mas em data-centers físicos, com pegada ecológica devastadora. Apesar das contra-narrativas hegemónicas que acolhe, o projecto expressa-se através destes suportes que assentam e perpetuam sistemas de opressão e violência.
⚠️ Apesar do saber ser sempre colectivo, agradeço que sempre que citarem palavras ou conceitos do meu trabalho refiram a fonte, para honrar as muitas horas de investigação e prática que geram estes textos disponíveis a todos. Como investigadora independente, recordo que não tenho afiliações ou bolsas institucionais, pelo que todo o investimento é apenas sustentado pelos meus muito limitados recursos pessoais.


